APENAS BOAS HISTÓRIAS FAZEM PRAÇA
        
No horizonte as horas passavam subscritas na paisagem, o tempo não era mais que o instante e a poesia não se guardava na lembrança. Nada além dos corações abraçados pela história, fazendo de Fortaleza o "não lugar" e a morada daqueles que acreditam em si e não resistem por ela.            
O menino parou e repousou sua estaca nas escadas da calçada do Teatro José de Alencar. Aquele era o primeiro dia do ano e ainda não passava das primeiras auroras de uma outra manhã. Só os pássaros e os ratos cruzam a praça naquela hora, vivenda que acolhia os que ali dormiam embrulhados nas caixas que as lojas se desfaziam.           
A menina pensou em ir para a missa, mas preferiu rezar ao lado de Raquel de Queiroz nos leões do centro. Puxou um cordão de vidro e dividiu a praça com os bêbados que urinavam nas árvores, enquanto chamava  "Ave Maria". E ficou esperando os sinos da paróquia do coronel.           
Cada um, na plenitude da sua demasia. Encorajando-se para começar o ano que poderia ser qualquer dia. Nada os esperava pela frente, não havia um caminho certo, um lugar seguro... Apenas a cidade, a mesma que os gerou e mastigou pela vida.           
Às sete horas, o relógio da Praça do Ferreira tocou e foi o único ruído que podia ser ouvido dali pela burguesia, onde escondiam os filhos desprovidos da índia maravilha. Soou como uma sereia chamando os meninos mal vestidos para um embuste.           
- Venham lavar os pés no meu umbigo.            
Embalando-os nas batidas, e feito ímãs, foram todos esquecidos pelos fogos de artifício cruzando lentamente as alamedas poluídas. Os dois, o menino e a menina, sentaram-se lado a lado às margens do chafariz. Tiraram os chinelos e mergulharam na banheira da vitrine da cidade. Como dois pombos divertidos e meninos.            
Molharam as horas, respingaram os ponteiros, despertaram o tempo e esfregaram-se nos olhos majoritários da cidade. Então, perceberam ter uns aos outros e viram o volume que juntos faziam. E começaram a festejar e a chamar toda a capital. Fortaleza, assim, notou-os e foi dar bom dia.           
- O que ainda querem de mim? Já não bastam as esmolas que providencio?           
- Eu quero a ti, mãe. Quero que me reconheça como filho e me aceite no jardim da tua casa - pediu o garoto.           
- Quero estudar e acreditar em mim, já que não acreditas. Poder escrever minha agonia na tua história que insistes em esquecer, Fortaleza. – completou a menina.           
A cidade parou e respirou, abriu os leques dos pulmões e aspirou as baratas dos lixos de concreto.           
- Aqui não é lugar para meninos bandidos, não é verão para mendigos e maltrapilhos! – respondeu um segurança sacudindo-os pelas orelhas e espantando todos como fugidos. Depois, estendeu os tapetes quadriculados de veludo pelas galerias e tapou a sujeira das olarias.            

Foi assim que Fortaleza recebeu José e Maria para mais 300 dias, e ainda encapotou os únicos pares de chinelos que os dois tinham.

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 (Jânio César. Desenho de Yuri Yamamoto.) 

Jânio César é um brasileiro amante das artes. Nasceu no dia 28 de fevereiro em Porto Alegre e cresceu e criou-se na capital do Ceará, estado que retem suas raízes familiares e culturais. Estudante do curso de Licenciatura em Teatro do IFCE, trabalha desenvolvendo atividades ligadas ao mundo das artes cênicas, mas define-se profissionalmente, em primeira instância, como poeta das virtudes e dos lamentos da vida. Em 2012 ganhou o Prêmio Literário Juvenal Galeno vinculado a Secretaria de Educação de Fortaleza, em razão do seu livro Três Pontos, conforme Diário Oficial do Município de Fortaleza, 23 de novembro de 2012 pág 25. Conheça um pouco de sua produção escrita dividida nas categorias: Poemas, Pequenos Contos, Contos e Pensamento.




ÍNDICE:


PRIMEIRO OLHAR
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SEGUNDO OLHAR
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I ATO

E quando eu falo do amor, do tempo, do vento, percebo! É necessário reinventar a vida.


ONDE ESTÁ LARRY TATE?    (Prosa Poética)
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IGUATEMI    (Poema)
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A TV, O COLCHÃO, O SOFÁ E TRÊS DOUTOR    (Poema)
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RISCO DO VENTRE    (Poema)
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TRÊS PONTOS    (Poema)
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O CONVITE    (Poema)
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ELA É DO CARIRÍ    (Poema)
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CÉU, TETO DE BURLE MARX    (Poema)
ˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉ LER 
DO VERSO A PROSA    (Poema)
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PRIMEIRO PONTO    (Olhar Poético) 
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I ATO - CONCLUSÃO:
Sim, eu ainda acredito no amor incondicional, sei que existe, mas não é de hoje que está perdido, não foi agora que ficou extinto. Foi esquecido e vulgarmente trocado pelos interesses, substituído por uma duvidosa ideia de sentimento.


II ATO
Outro dia, enquanto sonhava, fiz algo que queria muito. E de tão real o sonho, vi o tamanho da minha loucura.

TERÇA JOSÉ-MARIA FEIRA    (Prosa Poética)
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ORGULHOSA    (Poema)
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O LEÃO E A FLORESTA    (Poema)
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SAMBA PARA O NÃO AMOR    (Poema)
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DEIXA ELA PASSAR...    (Poema)
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SÓ UM PEDAÇO DE VOCÊ    (Poema)
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A CAMISA E O CABIDE    (Poema)
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TELA E FOLHA EM BRANCO, ADUBO DE MIM    (Poema)
ˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉ LER 
REFLUXO    (Poema)
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SEGUNDO PONTO    (Olhar Poético)
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II ATO - CONCLUSÃO
Hoje a noite vou colocar minhas velhas asas nas costas para viajar pelos sonhos inventados. Vou fazer uma parada no teu abraço, seguir pelo teu carinho, beber da fonte que nos achamos, juntar os pedaços que você me deu e pendurar nas estrelas. Ver tudo que fantasiei na minha cabeça e que só nela ficou. Revirar todo o sonho e beber do teu veneno depois.


III ATO
Quero usar esta última inspiração antes que o desejo se vá e meus pensamentos fiquem mudos e frios, sem saber o doce sabor das palavras.

O ÚLTIMO DUQUE DE CAXIAS    (Prosa Poética)
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SE FERROU!    (Poema)
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A PROSTITUTA DO AMOR    (Poema)
ˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉ LER
OITO DE PAUS    (Poema)
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O CAVERNOSO    (Poema)
ˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉ LER 
10 CENTAVOS PAGA    (Poema)
ˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉ LER 
ADÃO    (Poema)
ˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉ LER
CORRENTES    (Poema)
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MARIA DAS DORES    (Poema)
ˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉ LER 
TERCEIRO PONTO    (Olhar Poético)
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III ATO - CONCLUSÃO
Houve um tempo em que as pessoas se respondiam, mesmo quando não se correspondiam. O mais estranho diálogo é sem dúvida o mudo e frio. O silêncio só fala por aquele que não arrisca suas palavras para não ter que justificá-las.

TERCEIRO OLHAR
ˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉ LER 


CONTOS
APENAS BOAS HISTÓRIAS FAZEM PRAÇA    (Conto)
ˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉ LER 
SUCESSO É OUTRA COISA    (Conto)
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VITÓRIA CORTEZ    (Conto)
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UM CAFÉ BEM AMARGO, POR FAVOR.    (Conto)
ˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉ LER 
MIL SÓIS    (Conto)
ˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉ LER 
ELA DISSE AMÉM    (Conto)
ˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉˉ LER